quinta-feira, 4 de junho de 2009

Sem Limites, sem escrúpulos

Ao tratar de juventude inconsequente, drogas, violência, morte e amizade, Trainspotting (1996) torna-se um dos longas-metragens mais polêmicos já lançados na história do cinema. O filme conta com duas figuras que deram um alavancada na carreira após seu lançamento: Danny Boyle, como diretor, que foi premiado com o Oscar de Melhor Filme com Quem quer ser um Milionário? (Slumdog Millionaire – 2008) e Ewan McGregor, como protagonista, interpretando Mark Renton, sendo hoje em dia um dos atores mais cotados de Hollywood.
Inspirado em um romance homônimo de Irvine Welsh, o longa começa com Renton falando: "Escolha viver. Escolha um emprego. Escolha uma carreira, uma família. Escolha uma televisão enorme. Escolha lavadora, carro, CD Player e abridor de latas elétrico. Escolha saúde, colesterol baixo e plano dentário. Escolha viver. Mas por que eu iria querer isso? Escolhi não viver. Escolhi outra coisa. Os motivos? Não há motivos. Quem precisa de motivos quando tem heroína?”. É nesse nível que o enredo se desenvolve. Danny Boyle não hesitou em mostrar sem pudor cenas do vício e as seqüelas na vida de cada um, rumando à destruição completa da vida de cada um ou da amizade.
É notável a quantidade de metáforas e o excelente uso da linguagem cinematográfica e da trilha sonora codificando a mensagem de forma clara. Enquanto as cenas de humor se misturam com as de violência, predominando uma atmosfera tragicômica no filme. Momentos como quando Renton, após decidir largar o vício e começar a sofrer de abstinência, busca meios de amenizar sua situação. Sem opções satisfatoriamente boas, ele se encontra com um traficante ralé que lhe dá supositórios de ópio. O imprevisto é que as cápsulas demoram a fazer efeito, e a falta da droga lhe provoca uma diarréia incontrolável, fazendo com que ele tenha de entrar no, como diz o filme, “Pior banheiro da Escócia”. Após se aliviar, o protagonista se lembra da medicação e, literalmente, mergulha na privada, em meio aos dejetos para pega-la.
Outra situação exposta é ter um bebê no mesmo local em que eles se drogam, sugerindo ao espectador a regressão que eles sofrem quando estão drogados: completamente vulneráveis, infantilizados, dependentes da droga como um bebê depende da mãe. Tudo isso logo é demonstrado na parte em que Allison (Susan Vidler) aparece gritando, inconsolável, e vai acordando todos. O bebê, pelo abandono, está morto no berço mas mesmo assim ninguém expressa nenhuma reação, até que Sick Boy (Jonny Lee Miller) diz a Renton: “Diga algo, Mark! Diga algo!” que responde apenas: “Vou preparar um pico.”
A ironia se faz presente em diversas partes no filme, quando como Mark Renton tem uma relação sexual com uma menor de idade e fica com medo de ser preso, enquanto em nenhum momento de sua loucura ilícita com as drogas, chegou a pensar em cadeia. Críticas como essa em relação à inconseqüência dos jovens e até ao senso comum com suas drogas socialmente aceitas, expressas através de Begbie (Robert Carlyle), fumante e alcoólatra violento, o único que não se droga no grupo, mas está longe de ser o mais correto. Seu desprezo por “essas coisas químicas” é compensado pela insanidade completa, arrumando brigas por diversão.
O filme propõe vários questionamentos sobre a moral, mas, propositalmente, não responde a nenhum deixando ao espectador a reflexão. Um clássico entre os “junkies” e os cults, fundamental a qualquer um que queira conhecer a complexidade de uma mente dependente e até bater de frente com uma realidade muito presente no mundo contemporâneo.